ABALO I 2018

** ABALO
PARTE I**
Galeria FOCO, Lisboa.

A pele encobre profundas revelações. E, quando se revela…. É um abalo quase impossível de olhar… Os olhos e a boca são engolidos, enquanto que o ser se curva sobre si mesmo, ao seu corpo vazio, despojado. O mundo existe e deixa de existir. É tudo. É nada. É uma imensidão…um grito. Surge o riso, o choro e talvez (com sorte) a morte.
As memórias são a minha cruz. Carrego-as penosamente ora ansiando ora temendo a amnésia. Memórias… Tudo se revela através delas e no entanto toda a ficção brota louca desse lugar mnemónico. O que é real? O que é ficção? Quem sou eu? Que processo é exigido para que a pele se dispa e se revele? Para que o corpo dance nu até morrer de orgasmo?
Nesta exposição são-nos re-veladas as várias intermitências da pele e dos seus respectivos processos. O non sense é colhido e composto numa instalação, onde coletivamente adquire significados, do nada passa a tudo, ou pelo menos a qualquer coisa. Uma máquina epilética, uma mostra esquizofrénica de olhos arregalados.
Esta instalação é uma alegoria ao meu próprio atelier. Foi organizada inspirada nos quartos dos heterónimos que habitavam esse lugar. É uma exposição desse espaço íntimo, escuro e primordial e está dividida em cinco sectores: primeiro entramos e percorremos um corredor escuro onde vozes se interpelam e sobrepõem numa cacofonia esquizofrénica. Ao fim do corredor, Matilde fala-nos “Eu, Matilde, digo e afirmo que Deus parou precisamente aqui”. A partir deste momento entramos nos “quartos”, ou pelo menos num vislumbre desse lugar. No terceiro sector além dos auto-retratos em polaroid, encontramos o espaço de Louise Duvall, com “peles” penduradas, uma “receita para fazer um corpo” e parte da sua pesquisa alquímica em busca da “pele perfeita”.
Entramos no quarto sector: nele fotografias polaroid surgem-nos. Do seu instante, revelam-nos corpos, rostos, próteses, ambientes. Revelam-nos partes de cada uma das mulheres que me habitam: Alice, Mar, Odette, Emily, Matilde, Louise, Helena, o Demónio-Pássaro e por fim Constança, recentemente falecida.
Ao centro, numa cama branca, uma escultura repousa. Uma traqueia ou uma coluna vertebral? Talvez seja o que sobrou de um corpo que saiu correndo, eufórico...
Aos pés da cama descobrimos um carro vermelho de brincar, uma memória de Alice. À cabeceira um instante do corpo do Demónio-Pássaro, autopsiado. É um morto-vivo.
Enquanto isso, na sala ao lado outras vozes falam. Agora mais claras…
São elas. São minhas. Talvez não sejam… Talvez apenas o sejam.
É um corpo a sete vozes e berros de um pássaro… daqueles que gritam porque não sabem cantar…daqueles jurássicos que engolem um Homem por inteiro.
Escutamos…ouvimos…
Entramos.
Aqui as vozes são mais fortes. É proibida a entrada! O Demónio-Pássaro não pode sair…

“Olhos cegos, olhos cegos, o ânus está prestes a parir!”
[disse Constança, dissertação, p.99]

Memórias, ficção, desejo… é o processo da pele,

um processo de intermitências,

um processo de amor,

um processo de morrer…

…vezes e vezes sem conta…

texto por Emily Ham